Cloves Carvalho: “É fundamental tecer uma rede que integre experiências e soluções”

Para inaugurar este espaço de entrevistas do boletim, convidamos o diretor do Instituto Votorantim, Cloves Carvalho, para fazer um balanço do Programa de Apoio à Gestão Pública (AGP) e apontar caminhos para o futuro. O gestor explica que os quatro primeiros anos da iniciativa foram de grande aprendizado para todos, mas estiveram marcados por dificuldades políticas e econômicas para os municípios. Nesse sentido, ele acredita que as eleições municipais deste ano podem representar uma oportunidade para o desenvolvimento de planejamentos plurianuais acordados entre os diversos atores locais que levem ao desenvolvimento local contínuo e sustentável.

Cloves diz que o AGP deve funcionar como um laboratório de boas práticas na administração pública e que os resultados do programa são inspiradores. “O propósito é gerar impactos positivos nas gestões públicas, trazendo ganhos a todos”, destaca.

Leia abaixo a entrevista completa.

1. Primeiramente, gostaríamos de falar sobre Investimento Social Privado. O senhor compartilha da ideia de que o recurso empresarial investido no campo social é mais transformador quando alinhado a esforços da esfera pública?

Acreditamos que o poder público sempre será o principal agente de desenvolvimento local. Esta crença, porém, não nos impede de enxergar que a transformação socioterritorial passará sempre por um tripé: público, privado e sociedade civil. Quando um dos agentes não participa de forma qualificada, a estrutura fica manca. O investimento social privado é um poderoso instrumento de desenvolvimento, mas ninguém retira – e nem quer retirar – do poder público a atribuição e a legitimidade para conduzir as políticas públicas. Justamente quando se trabalha em sinergia, os resultados são potencializados, cada um trazendo sua expertise e seu papel específico, construindo um cenário melhor, atuando nas afinidades e ajustando as divergências.

2. Como os parceiros dessa iniciativa, seja o BNDES, o Instituto Arapyaú ou o BID, agregam valor ao programa? Qual o papel de cada um?

O BNDES é um parceiro de primeira hora do programa, pois desde o início sempre acreditou na proposta de promover o desenvolvimento social dos territórios por meio do fortalecimento do poder público local. Essa confiança é traduzida no aporte de recursos e na credibilidade que sua marca traz consigo.

Já o BID e o Instituto Arapyaú chegam em um momento de amadurecimento do programa, no qual estamos dando um salto na profundidade com que tratamos das questões locais referentes a planejamento estratégico e gestão participativa. Ambos aportam conhecimento, metodologias inovadoras e investimento financeiro, trazendo ganhos em consistência e capilaridade das ações realizadas.

3. De que forma um programa desse porte, encampado pelo Grupo Votorantim e pelo BNDES, impacta a administração pública em termos de atração de mais investimentos para as localidades e melhoria da qualidade dos serviços públicos ofertados à população?

O programa prima pela robustez metodológica, ao passo que só é exequível com adaptabilidade aos diferentes contextos locais. As equipes que trabalham em campo colocam sua experiência e conhecimento em desenvolver soluções para a gestão pública de forma aberta, propondo uma construção em consenso com os gestores públicos e atores políticos dos municípios. O impacto é verificado no aumento substancial de normas e regulamentos que estimulam o ordenamento territorial e o desenvolvimento sustentável, bem como na estruturação das finanças públicas, por meio da captação de recursos e controle orçamentário:
– Aumento de receitas sem aumentar impostos, garantindo que todos paguem o que é devido;
– E aprimoramento na execução de despesas, através de um controle matricial de contas da Prefeitura.
Em todos os casos, o trabalho tem como fulcro a disseminação de práticas que fomentam a transparência e a participação da sociedade.

4. Quais foram os critérios para seleção de municípios e em que frentes de ação o programa atua nestas localidades? De que forma essa rede gera conhecimentos que são compartilhados entre todos?

O Instituto Votorantim tem como desafio apoiar e qualificar a atuação social das empresas do grupo, de forma que ela passe a integrar a própria estratégia corporativa das mesmas. Desta forma, o principal critério de seleção de municípios é a presença de alguma operação da Votorantim . A partir de critérios técnicos e de um diagnóstico aprofundado de potencialidades e desafios, o programa pode ser apontado como um instrumento adequado para responder a esses cenários. Modernização da Gestão e Ordenamento Territorial são, hoje, as frentes estruturadas do programa e os conhecimentos produzidos e sistematizados são compartilhados em fóruns, workshops, oficinas, materiais institucionais e mesmo no constante ajuste fino do modelo de atuação, trazendo as inovações e experiências exitosas de determinado projeto para os demais.

5. É objetivo do programa funcionar como laboratório de boas práticas na administração pública? É possível apontar algum resultado que sirva de inspiração para outras regiões?

Justamente. O propósito é gerar impactos positivos nas gestões públicas, trazendo ganhos a todos. Para tanto, é fundamental tecer uma rede que integre experiências e soluções. São muitos os resultados que inspiram, considerando, inclusive, a dimensão do desafio proposto e o porte de cada município. Podemos falar desde boas práticas de gestão financeira em municípios do interior paulista e mineiro e no sul do país e até em atuações integradas territorialmente no Centro-Oeste, no Norte e no Nordeste do País.

6. 2016 é um ano de muitas mudanças na administração pública em esfera municipal. Teremos eleições em outubro e toda a agenda política está profundamente impactada pelas mudanças no Governo Federal. De que forma o Instituto Votorantim vê esse ano de passagem e o que o programa projeta para o futuro?

Os últimos quatro anos foram, ao mesmo tempo, de grande aprendizado para o programa e de muitas dificuldades econômicas e políticas para os municípios. O momento atual de transição é visto por nós como uma grande oportunidade para um planejamento plurianual para que, desde o primeiro momento, a gestão municipal siga um norte acordado com os diversos atores municipais e possa planejar e executar eficazmente as políticas públicas, zelando pelo patrimônio público e permitindo investimentos que tornem o desenvolvimento local contínuo e sustentável. Períodos de renovação são sempre oportunos para propiciar sentimentos de esperança, confiança e inspiração.

7. Um conceito bastante em alta no campo social é o da geração de valor compartilhado, ou seja, quando todos os agentes envolvidos em um projeto saem beneficiados a partir de um investimento. De que forma estas experiências devem gerar valor para o Grupo Votorantim e para a sociedade em geral?

Acreditamos que o desenvolvimento sustentável é uma balança de dois pratos em equilíbrio: desenvolve a comunidade ao mesmo tempo que desenvolve o ambiente para negócios nela instalados. O Grupo Votorantim entende a relação com o desenvolvimento local como uma relação ganha-ganha. A melhoria na qualidade de vida das pessoas e da oferta de serviços públicos, a criação de um ambiente de negócios dinâmico e ao mesmo tempo estável, o incremento de mecanismos de preservação e transformação qualificada dos territórios, tudo isso gera muito valor para o Grupo e para todos. Quem ganha com um ambiente fragilizado? Quem ganha com cidades desestruturadas e sem gestão? Ninguém. Quando se trabalha no desenvolvimento local, ganha a população, ganham as instituições, ganha todo mundo.