Participantes da Oficina do AGP, realizada no Encontro da Atuação Social, trazem percepções sobre os principais temas que envolvem a Gestão Pública e seus atores

Foto de pessoas de diversas idades sentadas em cadeiras, reunidas em uma sala fechadaO evento, que aconteceu em São Paulo (SP), contou com dias temáticos sobre programas e projetos Instituto Votorantim. A ideia foi provocar reflexões sobre estratégias e modelos de atuação nos facilitadores das empresas e consultores que, na prática, são as pessoas que desenvolvem as iniciativas na ponta. Para o AGP, foi uma boa oportunidade para reunir ideias e trocar experiências.  A oficina rendeu debates interessantes, mostrando um pouco do que acontece, como se articulam e como pensam as pessoas envolvidas com administração pública nas diferentes localidades.

Alguns temas relevantes levantados na oficina são apresentados a seguir, mostrando como diferentes conceitos abordados pelo programa são aplicados na prática e como se articulam entre as diversas frentes trabalhadas pelo programa.

1 – Vivemos um cenário político bastante conturbado, uma crise de representação, marcada por um momento de muita instabilidade política e econômica. De que forma esse contexto impacta a participação comunitária nos assuntos de interesse público em suas localidades?

 Lauanna Campagnoli, consultora da Geo Brasilis– Tenho encontrado dificuldade em trazer as pessoas para participar. Por mais que a gente tente colocar um espaço e horário acessível, não sinto uma mobilização das pessoas para ir. Talvez isso aconteça por desacreditarem na política. Por outro lado, vejo que, uma vez iniciado o processo de participação, ela tende a crescer: em Alumínio começamos as reuniões com seis pessoas e terminamos com 25 pessoas. Foi uma experiência positiva. Um chamou o outro e as pessoas foram participar porque estavam sendo ouvidos naquele espaço.

Juceline Durigan, consultora da Geo Brasilis – Acho que além da percepção de política e participação da população, entra o fator da percepção do gestor sobre o que é política pública de uma maneira ampla. Falta vê-la como uma ferramenta para alcançar um objetivo – que depende de recursos orçamentários, humanos e técnicos alocados para aquela meta. O que vejo é uma ausência de entendimento de alguns gestores sobre o recurso que eles possuem, do objetivo e do problema a ser enfrentado e isso interfere no quesito participação quando ela mais deveria existir.

Alan Ferreira da Costa, Companhia Brasileira de Alumínio (CBA)- Se eu pudesse resumir, diria que enfrentamos dois desafios:  um é de mobilização – as pessoas estão desacreditadas – e o outro ponto é um despreparo, em alguns casos, de quem está fazendo oficialmente a política. Não acontece o diálogo.

Raquel Crispim, consultora do Instituto Meio – Dentro desse cenário, vejo uma busca por alternativas. Os jovens com quem eu convivo estão fazendo política de outras maneiras, em coletivos, muitas vezes informais, por exemplo. Os observatórios, os grupos nas universidades. Existe essa tendência.

Pedro Henrique Pelegrini, técnico Projeto Aripuanã (Votorantim Metais) – É preciso dar para a comunidade a visão do que são direitos e deveres. Não podemos contar e trabalhar só com gestores. É necessário empoderar a comunidade para que ela possa cobrar da gestão melhores condições de vida.

2 – De que forma esse assunto da participação e mobilização está ligado com o tema desenvolvimento sustentável?

 Fernanda Ramos, Votorantim Cimentos – Tenho a impressão que cada vez mais fazemos política de varejo. Vem uma pessoa, fala que quer algo e o novo político faz uma ação pontual para atender. A política pública mesmo, que é o planejado, que garante o desenvolvimento sustentável das cidades, fica na gaveta. Entendo que existem outros fatores para optar por esse tipo de política, mas olhar para o planejamento é importante, é um ponto de atenção.

Cecília Papavero, Votorantim Siderurgia Argentina – O atual governo nacional argentino é composto por técnicos, cada qual em sua área, que não possuem foco em políticas públicas estruturadas em longo prazo. Estão governando o país com pressa, conseguindo resultados, mas deixando de lado a política pela maioria da população. É preciso planejar e pensar em mudanças que se sustentem por anos, para outras gerações.

Ana Pessoa Santos, Votorantim Metais de Paracatu (MG) – O desenvolvimento e o sustentável estão ligados ao médio e longo prazo – que é algo que não combina com uma gestão de quatro anos ou com o que o político deseja, que é deixar a marca dele. Sinto que é difícil para o gestor apostar em algo para o próximo “colher os louros”. Planejamento e estratégia para pensar o futuro não são valorizados, há desconstrução no caminho e de quatro em quatro anos, ou oito, parece que a gente começa do zero. Um exemplo é Paracatu (MG), tinha plano estruturado com metas para 2030, isso se perdeu entre os diferentes mandatos e estão tentando retomar agora.

Amanda Araújo Oliveira Bonfim, Votorantim Metais de Vazante (MG) – Em Vazante (MG) trabalhamos muito esse tema porque também pensamos no desenvolvimento sustentável no plano de descontinuação da unidade. A unidade tem vida útil longa, mas como vai ser a cidade sem a empresa? O município tem 20 mil habitantes, 64 anos, e a unidade tem 61. As histórias cresceram juntas.

Juceline Durigan, consultora da Geo Brasilis  – Acho que um aspecto importante do desenvolvimento sustentável é que ele pressupõe planejamento e nos esquecemos disso, nós, a comunidade. Não se planeja para desenvolver de maneira sustentável, o gestor não é cobrado e a população, imersa em outras preocupações diárias, não prioriza o desenvolvimento sustentável.

Sabrina Oliveira Costa Espinola, Regional Nordeste da Votorantim Cimentos – O assunto volta para participação social. Junto com o planejamento é preciso fazer as pessoas perceberem que o que vem por meio de base popular tem muito mais força. As pessoas precisam ver a força que têm. Os conselhos e associações, por exemplo, são locais de muita contribuição da política. Onde têm conselhos bem estruturados, base comunitária com visão do social, as coisas acontecem.

3 – Como as parcerias intersetoriais e a cooperação entram nessa equação de participação pelo desenvolvimento sustentável?

Helio Alberto Morangoni, Votorantim Cimentos – Acho que, ao falar de desenvolvimento sustentável e gestão pública, temos que pensar nos atores que precisam ser envolvidos e lembrar que não é só a prefeitura a responsável pelas melhorias. Ela não cumpre nada sozinha. É necessário ativar os grupos do entorno pelo projeto de desenvolvimento da cidade.

Marcos Tamai, consultor da Interação Urbana – Não deveria ser só a comunidade local, é uma questão de território (LINK), de alcançar âmbito regional. Pensando em cidades pequenas, não contar só com um prefeito, mas com vários que estão perto, além de outras figuras políticas, cidadãos, empresários, todos. As cidades menores têm recursos escassos, baixo poder de fogo para disputar orçamentos.  A questão do planejamento vista de maneira regional é uma forma bacana de estabelecer o controle social e resultados.

João Borges Montenegro, CBA de Niquelândia (GO) – Acho que também é fundamental para o município trabalhar com parcerias público-privadas. Olhando para o caso de Niquelândia , percebemos que existe um espaço para qualificar a gestão e é nisso que podemos ajudar. Os servidores estão dispostos a trabalhar, mas ainda há dificuldade de gestão. Vejo que podemos unir o que cada lado tem de melhor.

Silvia Borim, Votorantim Metais de Fortaleza de Minas (MG) – Este trabalho é muito importante pra gente, nesse momento, e o AGP só vem endossar o que já vínhamos trabalhando lá no nosso território. Estamos fazendo uma agenda social que tem como pilar o apoio à gestão pública. Esse é um caminho para obter melhorias nesse ponto e na política de modo geral.