Conversa Direta com Adriana Alvarenga

Adriana é coordenadora do Fundo Internacional de Emergência para a Infância das Nações Unidas UNICEF em São Paulo e possui longa experiência na luta pelos direito humanos, em especial da criança e do adolescente.

 

iV: Em suas palavras, no que se resume o direito da criança e do adolescente e como nós, cidadãos comuns, podemos ajudar a garanti-lo no dia a dia?

Adriana: Todas as crianças devem ter garantido um conjunto de direitos, que estão contemplados globalmente na Convenção sobre os Direitos da Criança, da qual o Brasil é signatário localmente no artigo 27 da Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente. Este conjunto de direitos diz respeito ao acesso à educação, ao lazer, à dignidade, à saúde, à proteção e à convivência familiar e comunitária.

A Constituição Federal lembra que a garantia dos direitos das crianças e dos adolescentes é dever da família, da sociedade e do Estado, ou seja, de todos nós. No nosso dia a dia, essa nossa responsabilidade se traduz em ações como garantir que seus filhos estejam na escola e aprendendo, mas também ajudar a identificar crianças que estão fora da escola e orientar suas famílias e/ou cuidadores a procurar os serviços responsáveis, para que tenham acesso à escola. Elas podem estar ao seu lado.

Nós devemos, como cidadãos, denunciar casos de violência contra as crianças e os adolescentes. Podemos não comprar produtos em que foi empregada mão-de-obra infantil. Podemos fazer doações a organizações sérias, idôneas e que dedicam-se aos direitos das crianças e dos adolescentes. Podemos emprestar nossos talentos e tempo a trabalhos voluntários.

Essas e outras ações precisam estar incorporadas em uma postura cotidiana, em que a garantia dos direitos das crianças e dos adolescentes seja uma prioridade para todos.

iV: A seu ver, como as pessoas enxergam essa questão de direitos humanos aqui no Brasil?

Adriana: Em 2018, o Instituto Ipsos fez uma pesquisa que mostrou que seis em cada dez brasileiros acreditam que “os direitos humanos apenas beneficiam pessoas que não os merecem, como criminosos e terroristas”. O percentual de concordância com tal afirmação no Brasil é mais alto do que em outros países.

Os entrevistados brasileiros estão entre os que mais concordam com a frase “direitos humanos não significam nada no meu cotidiano” (28%), perdendo apenas para os ouvidos na Arábia Saudita e na Índia. Ao mesmo tempo, a mesma pesquisa mostra que os brasileiros entendem que é preciso defender os direitos humanos, principalmente os das crianças.

É importante que as pessoas compreendam que, se acham que nenhuma criança deve viver na pobreza, por exemplo, elas são a favor dos direitos humanos. Se acreditam que nenhuma criança deve ser vítima de violência, são a favor dos direitos humanos. Se pensam que todas as crianças devem ser vacinadas, são a favor dos direitos humanos. Ou seja, é preciso superar as ideias equivocadas e esclarecer o que são e para que servem os direitos humanos.

iV: Como foi sua trajetória até chegar à coordenação do UNICEF em São Paulo?

Adriana: Tenho uma longa trajetória na área da infância e da adolescência, que começou ainda na minha própria adolescência, quando cursei o antigo Magistério e comecei a dar aula voluntariamente a crianças de baixa renda que tinham dificuldades de aprendizagem. Depois, estudei comunicação e virei publicitária e, em seguida, jornalista. As campanhas e matérias que me davam mais satisfação eram justamente as que abordavam questões relacionadas às populações mais vulneráveis. Também trabalhei no GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), no qual grande parte dos associados investiam na área da infância. Em 2002, ingressei no UNICEF, pela área de Comunicação. Especializei-me em políticas públicas e assumi a coordenação do UNICEF em São Paulo em 2017.

iV: Como você acredita que seus objetivos de vida se encaixam na missão de oferecer uma vida mais digna aos meninos e às meninas em situação de vulnerabilidade?

Adriana: Sempre me movi pela garantia dos direitos das populações mais vulneráveis. Acho que isso tem a ver com o ambiente em que fui criada, com familiares que me ajudavam a enxergar a realidade, apoiando desde criança as ações realizadas pelo Rotary, por exemplo. Tenho o privilégio de trabalhar pelos direitos das crianças e dos adolescentes e a felicidade de poder aliar minha formação a um trabalho que me faz muito feliz.

iV: Lidar com crianças e adolescentes oferece uma bagagem profissional e pessoal muito grande. O que mais te impactou trabalhando nesse ramo?

Adriana: Sem dúvida, as histórias das crianças e dos adolescentes que fui conhecendo ao longo dessa trajetória. Crianças que superaram enormes desafios ao longo da vida. Meninas que foram abusadas sexualmente e precisaram de apoio para se reinventar. Crianças que estavam fora da escola, dando seguimento a um longo ciclo de violações sofridas por avós, pais e irmãos e mudaram a vida delas próprias e de suas famílias. Mães de adolescentes assassinados, que compartilharam sua dor para que outras famílias vivam o mesmo.

iV: No que se baseia o Programa de Cooperação do UNICEF com o Brasil para o período de 2017 a 2021?

Adriana: O Programa de Cooperação do UNICEF no Brasil está focado em populações prioritárias:

  • Políticas especializadas para crianças e adolescentes excluídos. Aqui estão as crianças que não têm registro de nascimento, que estão fora da escola, que não têm acesso a serviços de saúde, etc.;
  • Políticas sociais de qualidade para crianças e adolescentes vulneráveis. Aqui estão as crianças que estão na escola, mas não aprendem; têm acesso a serviços de saúde, mas eles não são de qualidade, etc.;
  • Prevenção e resposta às formas extremas de violência;
  • Engajamento e participação dos cidadãos.

Atuamos em mais de 1.900 municípios, que ficam em três territórios prioritários: Semiárido, Amazônia e grandes centros urbanos.

iV: Desde que o UNICEF começou a operar no Brasil, houve uma grande evolução no quadro nacional. Poderia nos dizer alguns números expressivos em relação ao avanço da garantia do direito desses jovens?

Adriana: Nas últimas décadas, o país realizou enormes conquistas para suas crianças e seus adolescentes. Algumas das últimas décadas foram:

  • A pobreza infantil monetária foi reduzida entre 2005 e 2015;
  • O percentual de crianças e adolescentes de 4 a 17 anos fora da escola caiu de 19,6% para 6,5% entre 1990 e 2015;
  • O percentual de crianças com desnutrição crônica (medida pela baixa estatura da criança para a idade) caiu 50% no Brasil entre 1996 e 2006, passando de 13,4% para 6,7% das crianças menores de 5 anos;

No entanto, esses avanços não alcançam todas e todos:

  • A pobreza monetária ainda afeta 34% das crianças e dos adolescentes;
  • Ainda morrem, a cada ano, 42 mil crianças de até 5 anos de idade no Brasil;
  • Todos os anos, milhares de adolescentes perdem a vida vítimas de homicídio. A cada dia, 31 meninas e meninos de 10 a 19 anos são mortos no país. Ser negro aumenta em três vezes o risco de ser assassinado no país;
  • Na adolescência, 17,5% das meninas e dos meninos estão acima do peso, sendo que 8,2% já sofrem com a obesidade;
  • 2,8 milhões de meninas e meninos estão fora da escola, 1,59 milhão (57%) desse grupo têm entre 15 e 17 anos. Uma parcela significativa nem chegou a concluir o ensino fundamental.

iV: O Programa Votorantim pela Infância e Adolescência (VIA) tem como objetivo contribuir para a melhoria da qualidade de vida de crianças e adolescentes. Como você entende que isso se alia ao seu trabalho?

Adriana: Ambos somos movidos pela garantia dos direitos das crianças e dos adolescentes. A participação das empresas é fundamental para que o investimento na infância e na adolescência seja uma prioridade absoluta para todos. O setor privado precisa assumir o seu papel no relacionamento com funcionários e colaboradores, clientes, fornecedores, investidores e investir em iniciativas que estão para além de sua abrangência mercadológica. Se juntarmos as nossas forças, vamos transformar as vidas de milhares de meninos e meninas que não podem mais esperar.

iV: Dos projetos que você participou durante seus anos de ofício, quais você considera mais importantes?

Adriana: Acho que todos foram importantes, mas há alguns resultados mais recentes que me dão muito orgulho. Um é a elaboração do Plano Municipal da Primeira Infância, em São Paulo, com o qual pude contribuir diretamente e que foi lançado hoje. Outro é um conjunto de ações que estamos implementando desde o início do ano, em parceria com organizações governamentais e não governamentais, cujo principal objetivo é reduzir a gravidez na adolescência em São Paulo.

Também estamos trabalhando na constituição de um comitê paulista de enfrentamento aos homicídios de adolescentes, porque o Brasil é o segundo país que mais mata sua população mais jovem, e em São Paulo a realidade também é preocupante. Somente no ano passado, perdemos mais de 300 crianças e adolescentes para a violência. É muito gratificante poder colocar o UNICEF a serviço da articulação entre os diversos setores, porque os avanços acontecem, em geral, quando governos, sociedade civil, universidades, organizações do setor privado e os próprios adolescentes trabalham juntos.