Conversa Direta com Joyce Coutinho Meireles de Oliveira

Joyce é coordenadora do Projeto Casulo, que recebeu, em 2018, o Prêmio Melhores ONGs. Fez carreira como educadora em escolas públicas e participou de grandes projetos sociais, levando conhecimento, garantindo direitos e preparando jovens para um futuro com mais oportunidades.

iV: Conte-nos um pouco sobre sua trajetória profissional.

Joyce: Sou coordenadora da Instituição Projeto Casulo desde 2012. Atualmente, atuo no Programa de Educação Integral que visa oportunizar a continuidade do desenvolvimento intelectual, afetivo, social e físico de crianças, adolescentes e jovens pós horário escolar no espaço da ONG. Sou graduada em Letras e Pedagogia, com especialização em Gestão no Terceiro Setor pelo GESC – FIA.

Trabalhei em escolas da rede pública municipal e na implantação do programa de governo “São Paulo é uma Escola”, entre 2004 a 2007, promovendo rádios comunitárias. Desde então, decidi me dedicar ao desenvolvimento e fortalecimento de vínculos familiares e comunitários de regiões pobres das zonas Sul e Oeste de São Paulo.

iV: Por que você acredita que São Paulo – e tantas outras cidades por todo o mundo – precisa de projetos como o Casulo?

Acredito na equiparação das oportunidades, na garantia de direitos. É extrema a desigualdade social em cidades grandes como São Paulo. Tenho aqui na região do Morumbi, zona Sul de São Paulo, um bairro que não tem nenhuma escola pública de ensino médio, mas tem mais de quatro escolas bilíngues!

As oportunidades ofertadas para essas crianças, adolescentes e jovens moradores do Real Parque e Jardim Panorama são muito diferentes. A luta das organizações nesse território é para que a educação seja nivelada por cima, que se proporcione o mesmo desenvolvimento nas linguagens da arte e no vernáculo para todos. Nosso desafio é preparar os jovens para o mundo!

iV: Como os impactos do Projeto nos jovens reverberam em suas famílias?

Joyce: As rodas de conversa são a nossa maior ferramenta de discussão de conceitos e elaboração do pensamento crítico. Em diálogos a respeito de feminicídio, de violência doméstica ou mesmo no evento elaborado pelos jovens no dia do Combate à Exploração Sexual, todas essas discussões reverberam em suas famílias.

É notável como o número de mães em busca de atendimento no plantão social aumentou. Para se ter uma ideia, em um diálogo a respeito dos direitos, um adolescente questionou sobre sua moradia, que acabava de passar pelo processo de urbanização. A discussão se desenvolveu de tal forma que os adolescentes começaram a se preocupar em nome de quem ficaria o apartamento. Resumindo a história: o Casulo promoveu o casamento comunitário, a fim de efetivar relacionamentos de 17 pais e responsáveis das nossas 120 crianças e adolescentes.

iV: Como você entende que os eixos estratégicos do Projeto (educação, cultura, empreendedorismo jovem e fortalecimento da organização comunitária) podem impactar, na prática, a vida de crianças e adolescentes?

Joyce: O impacto está nas referências que essas estratégias proporcionam. O conceito da arte está ligado à história do homem e do mundo. O espírito empreendedor é essencial para o crescimento deste jovem, que precisa romper suas vulnerabilidades e conquistar o mundo.

Sem referências, caímos na reprodução da vida do vizinho, no senso comum e ficamos em um casulo. Mas, ao ter a oportunidade de participar de conversas, nas redes e nos conselho locais, acabamos participando da comunidade e sendo protagonista da nossa própria história. Portanto, o impacto se dará na construção deste desenvolvimento humano, quando este ser escolhe o caminho a percorrer.

iV: Assim como o Instituto Votorantim, o Casulo trabalha em parceria com iniciativa privada e pública. Você acredita que esse é o melhor caminho? Por quê?

Joyce: Com certeza este é o melhor caminho! A iniciativa pública precisa se fazer existir e desenvolver o seu papel na proteção e execução da política. A iniciativa privada tem como responsabilidade social, enquanto exercício da cidadania, o investimento no capital humano, e tem contribuído com estratégias circunstanciais incorporadas à economia social. A expertise de ambos dá condições a Institutos e Organizações de efetivarem um trabalho in loco.

iV: Fazer do trabalho social uma missão de vida é para poucos. Como é, para você, trabalhar com projetos comunitários?

Joyce: Sem dúvidas, há um perfil de profissionais para desenvolver este trabalho, esta missão. Na verdade, não é uma escolha, é um chamado. Meu objetivo de vida é acreditar no desenvolvimento humano. Ver o alcance destes sonhos, o traçar dos planos e a realização deles é o que me motiva.

iV: O Projeto Casulo recebeu o Prêmio Melhores ONGs 2018. O que essa premiação significa para vocês?

Joyce: Poxa, foi fantástico! É um super prêmio que chegou em um grande momento. O Casulo tem 15 anos de atuação e vive um trabalho intenso no dia a dia desta comunidade que, desde 2010, passa por grandes transformações. 2017 não foi fácil, nossa sustentabilidade esteve em grande fragilidade, mas nunca deixamos de acreditar. Esse prêmio foi o presente de bodas de debutante!

iV: Toda ação social tem potencial para gerar resultados incríveis. Quais os números mais expressivos do Projeto?

Joyce: Nosso Programa de Aprendizagem atingiu a meta de 63% de empregabilidade. Atendemos mais de 120 jovens e adolescentes este ano que se preparavam para o ambiente de trabalho. Alguns foram contratados como jovens aprendizes, outros como estagiários e alguns poucos com registro celetista. Mas, em época de intensa mudança no cenário corporativo, consideramos uma meta excelente!

A participação da família também é um dado significativo e relevante. Hoje, 88% dos pais e responsáveis participam efetivamente dos encontros no Casulo, além de participarem de conselhos gestores da educação e da saúde na comunidade que pertencem.

iV: O que o Projeto Casulo representa pra você?

Joyce: Sou apaixonada pelo Casulo e por tudo o que ele representa para essas pessoas. O vínculo não é apenas com os atendidos, o vínculo é com cada colaborador que nunca se ausenta do trabalho e que partilha, como uma grande família, suas conquistas e frustrações.

iV: Fique à vontade para acrescentar o que mais julgar interessante para a entrevista.

Joyce: O Casulo passará por mudanças em 2019. Neste cenário político em que estamos vivendo, precisamos nos organizar para resistir! E pensando nisso, o Casulo procurou uma OSC (Organização da Sociedade Civil) para compor em sua estrutura e manter os atendimentos com crianças e adolescentes em vulnerabilidade.

Para saber mais sobre o Projeto Casulo, acesse http://projetocasulo.org.br/