Cultura Organizacional abre nova série sobre mudanças na administração pública

Iniciamos um giro pelas localidades onde o AGP acontece para trazer relatos que mostram os impactos após a chegada do programa nos últimos cinco anos. Nesta edição, o destaque é o município de Três Lagoas (MS)

A cultura organizacional é um sistema de valores, processos e dinâmicas, compartilhado por um conjunto de indivíduos em determinada organização – seja ela uma empresa, uma organização da sociedade civil ou uma instituição pública. Manifesta-se como traços da personalidade de uma pessoa e está em constante movimento de transformação. É objeto de estudos de administradores, psicólogos, pesquisadores do campo social, entre diversos outros profissionais. Portanto, sob este ponto de vista, o que faz de um ambiente mais dinâmico, cooperativo e voltado para resultados do que outros? Essa é a pergunta que o Programa de Apoio a Gestão Pública se fez para abrir a mais nova série do boletim: #HistóriasdeTransformação.

Se avaliar a cultura organizacional já é uma tarefa complexa, estudá-la no universo da administração pública é ainda mais desafiador, por se tratar de um ambiente marcado por mudanças regulares de equipes, processos – na maioria das vezes, estruturalmente burocratizados – e interesses políticos, eventualmente conflitantes entre seus pares. Contudo, ao aproximar a lupa, é possível ver uma variedade de boas experiências. Neste ensaio, buscamos olhar para o caso do município sul-mato-grossense de Três Lagoas, que colocou para si o desafio de construir um amplo plano de sustentabilidade a partir da pergunta: “Como queremos viver daqui a 20 anos?”.

O caso é simbólico porque envolveu uma série de secretarias de governo e um amplo escopo de recursos humanos – servidores e técnicos que nunca haviam participado de experiência similar. Para além dos gestores que comumente se relacionam com o programa, buscamos outras fontes: profissionais que, de alguma forma, impactaram e foram impactados pelo plano e pelo trabalho levado pelo AGP para dentro da prefeitura. As histórias de transformação são muitas.

Silvania Bersani, diretora de Políticas Públicas e Relações Institucionais, conta que a chegada do programa – assim como o processo de planejamento do Três Lagoas Sustentável como um todo – ajudou a mudar profundamente a cultura organizacional dentro da prefeitura. “Vejo as mudanças especialmente na perspectiva de construção do plano de ação de transparência dessa gestão. O prefeito acompanha essa pauta de perto e todos os participantes acabaram se engajando com muita força. O apoio institucional do Instituto Votorantim, da Fibria, do Instituto Arapyau e das consultorias nos ajudou muito no processo. Vivemos um ambiente muito participativo, tanto dentro da gestão, com o corpo técnico, como com a participação popular. Hoje podemos dizer que vivenciamos uma cultura mais democrática, mais participativa.”

Ao conversar com outros gestores e técnicos da prefeitura, pessoas que participaram do grupo de trabalho, é possível perceber nuances da transformação que a gestão vem acumulando. Angela Maria de Brito, diretora educacional e pedagógica da Secretaria de Educação, reforça a importância da gestão participativa e aponta outro destaque da experiência: a construção de uma visão sistêmica no ambiente de trabalho.

“Para mim, um grande destaque do processo é a metodologia participativa, que dá credibilidade para a gestão junto à população. As pessoas se sentem de fato incluídas no processo e responsáveis por seus resultados. Outro ponto muito importante é o envolvimento de técnicos nas diversas secretarias. Pudemos entender como uma ação de uma secretaria tem impacto em outra e buscar soluções conjuntas. Os técnicos das diferentes áreas passam e se respeitar mais e também ganham uma visão sistêmica.”

Ela exemplifica relatando um caso que envolve demandas que dizem respeito a muitas áreas da gestão municipal. “Uma criança com deficiência ou com problemas de mobilidade que é aluna da rede municipal precisa estar devidamente atendida pelas áreas de Assistência Social e Saúde. Como resultado desse trabalho conjunto, a área de Saúde decidiu abrir um horário extra para atendimento dos alunos da rede municipal.”

Cultura organização como indutora de transformações individuais

Programas e projetos com alto impacto na transformação da cultura organizacional, invariavelmente, provocarão mudanças de comportamento e procedimentos técnicos entre o corpo de funcionários – especialmente entre os mais disponíveis a absorver novas competências e repertórios.

O professor Cristóvão Henrique, que também acumula a função de coordenador do Núcleo de Pesquisas Econômicas de Três Lagoas, órgão ligado à Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia, relata os aprendizados que tirou da experiência.

“Eu venho do campo acadêmico. São 12 anos na universidade. Quando chego nesse lugar [da administração pública], percebo que existe outro tempo de organização, de solução de problemas, de traçar metas. Então, a experiência que vivi com a construção do o Plano Plurianual (PPA) teve um sabor especial. Eu não tinha a dimensão do que é essa máquina em sua completude. Não tinha dimensão do trabalho e do esforço conjunto. Que cada um é peça importante da gestão.”

Silvania tenta entender quanta bagagem o grupo acumulou ao longo da jornada. “Eu acho que a experiência foi extremamente importante para os técnicos. Hoje, conversando com eles, percebemos que eles entenderam a dimensão do todo, compreenderam melhor as politicas públicas. Nesse sentido, entender as engrenagens foi muito importante. Um enriquecimento muito grande. Além de trabalhar na perspectiva real de que você, enquanto técnico, está direcionando o que tem de melhor dentro de si para um todo. Foi uma a grande construção.”

E neste sentido, o Plano Plurianual 2018-2021 de Três Lagoas, processo apoiado pelo AGP que envolveu uma série de servidores em sua elaboração – além da enorme participação popular –, é uma das experiências mais citadas pelos representantes do grupo de trabalho como indutoras de transformação da cultura organizacional.

“O PPA representa importante passo para a gestão pública que associa a ela a participação popular no processo de elencar diretrizes que contemplem o direito à cidade e à cidadania. Sem dúvida um documento valiosíssimo para a gestão e decisivo para os administradores públicos comprometidos com a inclusão. E, quando 40 técnicos são apresentados à experiência proposta pelo Instituto Votorantim, percebemos que não há uma divisão tão rígida [entre áreas] quando priorizamos problemas da cidade. Essa experiência veio para tirar essas barreiras divisórias que separam a administração pública. Algo inclusivo e não sectário”, avalia Cristóvão.

Neide Aparecida Silva, consultora do Instituto Polis que acompanhou o processo, tenta fazer o exercício de olhar de fora para esse universo. “Pensando no conjunto do trabalho, observo um amplo processo de compreensão, de esforço conjunto do corpo técnico. Um caso de empoderamento. A ação de integração entre as áreas propiciou um novo olhar para todos. Ainda é algo incipiente. Veremos mais resultados no longo prazo, mas algo, certamente, já mudou.”

Entre mudanças corriqueiras, a consultora elenca algumas ações simples, porém simbólicas, de todo o processo. Um exemplo foi a mudança dos horários das audiências públicas para adequá-las às necessidades da população. Ou a constante validação das políticas pelos conselhos – em um processo muito natural de relacionamento com a sociedade. Outro avanço relatado são as enquetes no site da prefeitura para fazer uma escuta com a população. Uma prática incorporada à gestão. Uma nova rotina.

“Acho que essa experiência foi muito interessante para todos os envolvidos. É importante para eles se entenderem como um grupo, em um esforço integrado. Vejo que eles entenderam a dinâmica. Compreendem que o cidadão é o mesmo. A cidade é a mesma. Assim como próprio estado do Mato Grosso do Sul, é uma prefeitura jovem, dinâmica e, após toda essa trajetória, bastante comprometida em encontrar soluções coletivas.”

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