Educação é valor

* Rafael Gioielli

Somos todos responsáveis. Este é o título do livro que reúne artigos escritos semanalmente por Antonio Ermirio de Moraes sobre educação e juventude. Pode parecer uma excentricidade que um dos maiores nomes do empresariado brasileiro tenha se dedicado por tanto tempo e com tanto entusiasmo a produzir reflexões sobre esta temática. A leitura dos diversos textos, no entanto, revela que a tarefa foi realizada com muita lucidez. Mas, afinal, porque a educação de nossos jovens foi tão cara a um homem de negócios?

Primeiro, é importante reconhecer que, seguindo a tradição de sua família, Antonio Ermírio era antes de tudo um cidadão comprometido com o desenvolvimento da sociedade. Segundo, não há dúvida que sua trajetória visionária e o tino para os negócios permitiram a ele ver que um País que não cuida de suas crianças e jovens está colocando em risco seu futuro. Sua proposta é clara: educação não pode ser um assunto de interesse apenas dos pais, dos professores e dos governos. Escola de qualidade e oportunidades aos jovens é uma responsabilidade de todos, inclusive do setor empresarial.

Dentre uma gama enorme de benefícios, estudos recentes que analisam a relação entre educação e economia têm afirmado que a evolução da qualidade – e também da equidade – na educação tem um reflexo imediato no crescimento do PIB dos países. O economista norte-americano Eric Hanushek, que tem sido protagonista deste movimento, conseguiu mostrar que o avanço da proficiência dos estudantes em matemática e ciências estão correlacionados a uma maior taxa de crescimento do PIB percapta. Da mesma maneira, a proficiência dos alunos da educação básica tem um impacto direto na competitividade dos países.

Isso nos leva a pensar que o empresariado deve, sim, ter uma preocupação e um olhar para a educação. Por mais que se possa buscar eficiência e competitividade em ações intramuros, a chance de os negócios prosperarem em uma economia globalizada depende cada vez mais do capital humano disponível. E aí não há como negar a relevância estratégica que a escola pública passa ter na economia. Hoje, cerca de 75% dos mais de 55 milhões de estudantes brasileiros estão nas redes públicas de ensino.

Curiosamente, em 2007, ano em que o livro foi publicado, o Ministério da Educação (MEC) lançou o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), um indicador de fácil compreensão que passou a aferir e estabelecer metas para a qualidade da educação nos sistemas municipais, estaduais e federal. Com ele tornou-se possível a qualquer pessoa monitorar como anda a qualidade da educação na escola do seu filho, do seu bairro, na sua cidade e no Brasil.

Desde então, a educação brasileira melhorou muito. A primeira medição do IDEB apontava uma média nacional para os anos iniciais da rede pública de 3,6, numa escala de zero a dez. Em 2015 atingimos a média de 5,3, um valor acima da meta estabelecida para o ano. Mas ainda há muito por fazer. Nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio, por exemplo, os resultados bianuais têm se mantido recorrentemente abaixo das metas. Além disso, há um grande número de adolescentes fora da escola. E daqueles que conseguem concluir o ensino médio menos de 30% atingem o nível mínimo de proficiência em matemática.

Observar os dois lados deste copo meio cheio e meio vazio tem sido fundamental para os avanços. E aqui temos de reconhecer os esforços dos governos, que há mais de 20 anos têm conseguido dar continuidade à políticas estruturantes no campo. Também há méritos do setor filantrópico e empresarial que modernizaram seu modelo de atuação distanciando-se do assistencialismo para fortalecer as políticas públicas e o papel do Estado neste tema. A criação da Base Nacional Comum Curricular, recentemente sancionada, ilustra bem esta história. Se agora temos um direcionador claro para as redes de ensino definirem os conteúdos que os alunos precisam aprender em cada série e em cada idade, esta foi uma construção longa e uma conquista que contou com o apoio de diversos setores.

Felizmente, a mesma mosca que picou Antonio Ermirio parece estar atingindo muitos outros empresários. A ideia de que somos todos responsáveis pela educação se materializa em ações relevantes que estão sendo empreendidas por institutos e fundações ligados a empresas ou famílias empresárias. Educação é um valor fundamental e que quando avançamos neste campo todos ganham.

* Rafael Gioielli é gerente geral do Instituto Votorantim