Monica Pinto: “Não podemos perder o compromisso e a velocidade para seguir com o avanço da Educação”

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A Educação tem pautado diversas discussões públicas e ganhado cada vez mais espaço. As audiências públicas para a definição do texto da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) já aconteceram nas cinco regiões brasileiras, mobilizando poder público, privado e sociedade para construir as diretrizes de maneira coletiva.

Em contrapartida, ainda há muitas dúvidas sobre a reforma do Ensino Médio. Em tempos de tantas urgências e debates sobre o tema, a pedagoga Monica Pinto, Gerente Institucional da Fundação Roberto Marinho, conversou com a gente para discutir quais são os caminhos para o ensino no Brasil.

“Precisamos continuar garantindo que a população brasileira fale sobre Educação. Dez anos passam muito rápido. “Precisamos, sim, do senso de urgência. Temos que ser mais ágeis e mudar agora”, afirmou.

Confira a entrevista na íntegra:

IV: Quais são os atuais desafios ainda enfrentados por institutos e fundações ao realizar programas e ações ligados à Educação no Brasil?

Monica Pinto: Acredito que há dois ou três grandes desafios. O primeiro deles é observar e conhecer profundamente os avanços em Educação que o Brasil teve dos anos 1990 para cá.

Outro desafio é estabelecer parcerias com outras entidades, instituições que atuam nos territórios. Por meio dessa ação conjunta, será possível estabelecer a sua forma de atuar. Também é necessário o diálogo com o poder público local e com os outros institutos do terceiro setor. Acho que o grande desafio que nós temos no País é convergir.

Em uma palestra recente, o economista Ricardo Paes de Barros divulgou estudo feito por ele em relação ao Ensino Médio. Ele encontrou 100 políticas públicas internacionais voltadas ao tema e descobriu que nós temos todas essas políticas.

Já temos os projetos, os diagnósticos dos nossos problemas em Educação, as metodologias capazes de responder essas problemáticas. Mas precisamos encontrar maneiras de trabalhar mais em diálogo, com efetividade, partindo de uma realidade local e sendo mais cirúrgicos na organização da nossa atuação.

O grande desafio é esse: conhecer bem esses dados e indicadores, fazer parcerias com as fundações e com o poder local. Dos anos 1990 para cá, o Brasil desenvolveu uma série de conhecimentos e dados que não havia antes sobre Educação. Desenvolvemos tecnologias, projetos e políticas públicas. O que nos falta é uma boa capacidade de articulação institucional e de implementação em longo prazo.

IV: Você acredita que, apesar de questões específicas locais, há iniciativas e metodologias estrangeiras que possam ser replicadas e/ou adaptadas no Brasil?

MP: Sempre é importante observar o que acontece fora do País. Porém, nós já desenvolvemos iniciativas e metodologias brasileiras bastante eficientes. Nós já possuímos um “cardápio” bastante interessante de soluções.

Eu sempre olharia para o que já desenvolvemos aqui no Brasil, em primeiro lugar. Nosso país tem uma particularidade muito importante que precisa ser levada em conta: nós somos um dos poucos países no mundo que têm quase 50 milhões de estudantes de Educação Básica. Os nossos desafios têm uma dimensão nacional muito peculiar, com especificidades culturais locais – como comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas por exemplo – que nos tornam continentais. Por isso, é importante mapear e olhar essas experiências dialogando com as estrangeiras.

IV: E quais iniciativas nacionais poderiam ser replicadas no exterior?

MP: Depende muito da realidade de outros países. O próprio Bolsa Família foi inspirado em experiências estrangeiras. Os países devem olhar para nós e, com base nas próprias particularidades, verificar como podemos inspirar outras experiências.

IV: Como a Base Nacional Comum Curricular pode ajudar com os avanços da Educação?

MP: O processo de elaboração da Base Nacional Comum Curricular foi muito importante por trazer uma questão que já estava prevista em lei: que um país de proporção continental, como o nosso, com tanta diversidade e 50 milhões de estudantes, discuta o conteúdo mínimo – a base nacional comum – para que a garantia de aprendizado seja direito de todos os brasileiros e brasileiras. A visão de que todas as crianças têm o direito de aprender deve pautar o trabalho da formação de professores, a elaboração de materiais pedagógicos e, consequentemente, a avaliação de aprendizagem.

No Brasil, começamos com as avaliações externas, estruturamos as avaliações dos sistemas de ensino, sem ter acordado qual seria essa Base Nacional Comum Curricular – todo o processo que já delonga alguns anos, com ampla participação de várias entidades representativas, com várias audiências nos territórios para a elaboração, enfim, diversas bases curriculares de estados.

A base nacional comum já passou por duas versões. O texto entregue, em abril, ao Conselho de Educação, é a terceira versão. Houve uma escuta pública e milhões de manifestações sobre as versões anteriores. Também foram organizadas audiências. Agora, o Conselho Nacional de Educação organizou audiências públicas regionais para que haja mais manifestações públicas sobre essa base.

A BNCC é fundamental e ajudará os estados e redes a organizarem os seus currículos. Sempre lembrando que ela é uma parte do currículo, ou seja, o texto permite que todas as especificidades regionais e locais sejam colocadas pelas Secretarias de Educação, na medida em que elas desenvolvam os seus currículos.

É um avanço fundamental para o nosso país. Uma criança que estuda, hoje, no Maranhão, se a família dela se mudar para o sul, ela tem que ter os direitos de aprendizagem garantidos, e vice-versa.

IV:  Sobral, no Ceará, avançou muito no Ideb após investimentos sólidos no Ensino Fundamental I. No entanto, alunos que já estavam no Fundamental II ou Ensino Médio deixaram de integrar esses investimentos. Qual seria um caminho para mitigar o atraso de aprendizagem nestas séries?

MP: O Brasil tem um problema no Fundamental II: a questão de transição entre o Fundamental I e o Fundamental II, entre o 5° e 6°. O adolescente é inserido em uma escola com uma dinâmica completamente diferente.

É preciso repensar essa lógica da escola com professores horistas, que, muitas vezes, não participam de um planejamento integrado por disciplina. Muitos deles encontram os alunos uma ou duas vezes por semana.

Um aluno com dois ou três professores, de repente, tem aulas com oito, nove professores no Fundamental II. Não há mais um grupo docente responsável por esse estudante, que também está passando por um processo de mudança do corpo, questões emocionais e afetivas.

Costumamos falar sobre a evasão escolar de estudantes na faixa de 14 anos: “O adolescente está abandonando a escola, ou a escola está abandonando esse adolescente?”.

Os jovens de hoje aprendem de uma maneira completamente diferente. É difícil, para uma escola que apresenta avanços no Ideb no Fundamental I, manter essas melhorias no Fundamental II e Ensino Médio.

Todo mundo está falando muito sobre a reforma do Ensino Médio, mas começamos a perder os alunos na escola brasileira no final do Fundamental II. É preciso que o País repense como trabalhar pedagogias de projetos. E temos várias experiências nacionais e internacionais, como a série “Destino Educação: Escolas Inovadoras”.

Também é necessário rever as condições de trabalho dos professores horistas. Muitas vezes, eles trabalham em três escolas, com centenas de alunos. Como ele vai estabelecer vínculos com cada um deles?

As disciplinas devem correlacionar seus conteúdos para que os alunos entendam que aquilo faz parte de um conhecimento específico, ainda que em disciplinas diferentes. Esse papel cabe aos professores: relacionar essas informações para que os estudantes entendam a sua aplicabilidade.

É preciso ter uma reorganização da dinâmica da escola que envolva um planejamento diferenciado. A carreira docente deve permitir que o professor trabalhe em uma ou duas escolas, para estabelecer um vínculo com seus alunos. É um problema muito menos do estudante e muito mais da estrutura da escola como é hoje, que remete ao século XIX.

IV: Como você vislumbra a Educação no Brasil na próxima década?

MP: Eu entrei para a faculdade de Pedagogia em 1982. Naquela época, uma coisa que me assustou é que a gente só ouvia falar de fracasso. O Brasil estava fazendo o movimento de universalização do Ensino Fundamental, mas ainda havia muitas crianças e adolescentes fora da escola. Hoje em dia, eu ouço falar de muitas histórias de sucesso, e isso me deixa muito feliz.

Ainda há muitos desafios, e a próxima década deve manter o acesso universal dessas crianças na escola, para que haja compromisso com o Plano Nacional de Educação (PNE) e suas metas. Precisamos garantir que as crianças sejam alfabetizadas até os oito anos, cuidar da carreira docente – tudo isso está no Plano Nacional.

Nós precisamos, como professores, ouvir mais experiências e ser ousados. Nos libertar de algumas amarras que ainda temos. Nesses últimos anos, conseguimos trazer bilhões em recursos para a Educação e, para mim, a próxima década é decisiva. Não podemos perder o compromisso e a velocidade para seguir com o avanço.

Precisamos continuar garantindo que a população brasileira fale sobre Educação. Dez anos passam muito rápido. Precisamos, sim, do senso de urgência, mas sermos ágeis. Tem que mudar agora.

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