Negócio: Inovação Social

De acordo com a Stanford Social Innovation Review, uma das publicações mais conhecidas sobre o tema, Inovação Social é “uma nova solução para um antigo problema social. Uma solução mais efetiva, eficiente, sustentável e justa que as soluções existentes, e que, prioritariamente, pode gerar valor para a sociedade como um todo ao invés de beneficiar apenas alguns indivíduos”. Esse tema é importante e tido com uma das bases dos programas do Instituto Votorantim (iV) e de outras organizações similares. Um bom exemplo é o Instituto de Cidadania Empresarial, o ICE, que há 19 anos vem reunindo empresários e investidores em torno de soluções que provoquem este efeito: mudanças significativas em comunidades de baixa renda.

Por estar cada vez mais em voga, recentemente convidamos expoentes na área para abordar o assunto em uma de nossas edições do iV Talks aquela conversa mais próxima com lideranças do iV e das empresas Votorantim sobre assuntos relevantes de nossa atuação –, e Diogo Quitério, Coordenador de Programas do ICE – Instituto de Cidadania Empresarial, participou como mediador. Visando trazer alguns dos pontos mais importantes ali abordados, batemos um papo com ele. Confira o que foi dito:

Instituto Votorantim Como criar uma cultura de avaliação em um empreendimento social? E como os resultados vindos a partir disso podem ser benéficos para o negócio?

Diogo Quitério Acredito que há três barreiras que precisam ser superadas para fortalecermos uma cultura de avaliação entre os empreendedores sociais: (1) diferenciar boa intenção de efetividade: é preciso amadurecer a percepção, por exemplo, de que nem todo projeto de educação, ou intervenção dentro da escola pública, gera uma transformação. O empreendedor que tem uma boa solução e busca parceiros (públicos e privados) para viabilizá-la deve ter clareza sobre o impacto que pretende gerar, estabelecer uma correlação entre a sua intervenção e a transformação desejada, definir indicadores que demonstrem esse caminho e assumir o compromisso de monitorar esses indicadores. No final do dia, é importante que sejam investidos recursos (tempo, dinheiro e conexões) nas soluções que apresentarem maior efetividade; (2) alinhar expectativas entre os empreendedores e seus stakeholders. A quem interessa a avaliação: aos financiadores, aos beneficiários ou aos empreendedores? Os dados a serem levantados foram definidos pelos empreendedores ou impostos pelos financiadores (isso altera o engajamento dos empreendedores no processo)? E, principalmente, o empreendimento já tem maturidade para ser avaliado? Nesse ponto, parece que estou contrariando o item 1, mas é importante entender que, nos estágios iniciais, o empreendedor está focado em fazer dar certo, testar e aprimorar a sua solução, então, é importante que ele saiba o que quer transformar, mas não cabe grande dedicação em avaliação; e (3) construir capacidades para qualificar o debate e a prática da avaliação. Empreendedores e financiadores não precisam ser especialistas em avaliação, mas devem compreender por que ela é importante, quais metodologias e ferramentas existem para serem aplicadas e como fazer uso dos dados e informações coletados. Todo o processo da avaliação só faz sentido se o empreendedor puder reverter as informações geradas em melhores decisões para a sua estratégia de atendimento, vendas, pós-venda, comunicação, recursos humanos, etc. Já para os financiadores, a avaliação é uma oportunidade de transformar seu capital em um smart money, entendendo onde e como poderiam contribuir para o fortalecimento dos empreendimentos.

iV Como fortalecer o ecossistema de Investimentos e Negócios de Impacto no Brasil?

DQ O campo de Investimentos e Negócios de Impacto traz a proposta de atrair um novo capital para financiar modelos de negócio que resolvam problemas sociais e ambientais. É uma forma de comprometer empreendedores e investidores com agendas relevantes de diminuição das desigualdades e criação de mais oportunidades para a população de menor renda. Além disso, considerando que estamos falando de modelos de negócio economicamente viáveis, acabamos atraindo inovação e tecnologia para incidir sobre desafios sociais e ambientais. É importante mudarmos a forma como resolvemos os problemas de saúde, moradia, acesso a crédito, saneamento, etc., por meio da mudança na forma como fazemos negócio. No que tange à participação de grandes empresas no fortalecimento desse ecossistema, surgem dois convites: (1) que os líderes de grandes empresas conheçam o ecossistema de empreendedores de impacto, as soluções desenvolvidas, os intermediários que têm apoiado os empreendedores (aceleradoras, fundos, professores, avaliadores etc.) e as diferentes oportunidades de interação com esses negócios (investimento direto, realização de primeiras compras, mentoria, abertura de mercado etc.); e (2) que levantem internamente os desafios de suas empresas, nas mais diferentes áreas, como gestão de pessoas, água, clientes, suprimentos ou comunidade e busquem no ecossistema de organizações de impacto às soluções que possam mitigar suas intervenções negativas e potencializar as positivas, gerando economia de gastos, eficiência de produção, engajamento interno e reputação.

iV No último Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impacto, a última roda de conversa trouxe esta mesma questão e, por isso, gostaria que compartilhasse seus conhecimentos sobre o tema com o iV. O que podemos esperar sobre os negócios de impacto e investimentos sociais no país nos próximos 2 anos?

DQ O campo dos Investimentos e Negócios de Impacto ainda está em estágio de amadurecimento no Brasil e no mundo. Já conseguimos superar a percepção de que trata-se de um modismo. Atribuir propósito ao capital e conectar negócios com impacto é uma tendência sem volta, mas que demandará alguns bons anos para se consolidar. Até 2020, temos a expectativa de participação crescente do governo: no final de 2017, foi lançada a Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto, que estabelece os papéis e oportunidades para atuação do governo nesse campo, então, podemos esperar a criação e o alinhamento de políticas públicas que favoreçam o aporte de capital e a geração de negócios de impacto. Além disso, temos acompanhado a entrada de diversos investidores, sejam institutos e fundações corporativas migrando parte de sua atuação para o campo de impacto, sejam instituições financeiras e indivíduos considerando impacto em sua tomada de decisão. E, finalmente, teremos mais modelos de negócios de impacto com soluções testadas e aptos a receberem recursos, escalarem e efetivarem sua vocação de melhorar o mundo.

Saiba mais sobre a atuação do ICE – www.ice.org.br