O peso do ensino técnico

*Por Rafael Gioieili

Desenvolvimento das competências profissionais qualificam a educação

O Ministério da Educação divulgou recentemente os resultados do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) e do Ideb (índice de Desenvolvimento da Educação Básica) referentes a 2017. Os dados sobre a aprendizagem e o índice revelam informações objetivas acerca da qualidade da educação em nosso País. Se ainda temos muito o que melhorar, há ganhos a comemorar: avanço consistente e continuado nos anos iniciais e finais do ensino fundamental. Só na rede pública, o indicador de qualidade dos anos iniciais subiu (5,3, para 5,5), ficando acima da meta. Nos anos finais, foi de 4,2 para 4,4, sem superara meta.

O destaque nesta etapa do ensino permanece no Ceará, que saiu de míseros 2,8, em 2005, para 6,1 em 2017. Apesar de estado pobre, a aceleração foi quase duas vezes mais rápida que a média nacional. Já nos anos finais, o estado tem 95% de suas redes municipais igualando ou superando metas previstas. Precisamos replicar o modelo.

O grande desafio continua sendo o ensino médio. O resultado da rede pública foi 3,5 quando o esperado era 4,4.0 próprio Ministério da Educação admitiu que estamos estagnados e que não há a chances de atingirmos a meta projetada para 2021. Comparando os dados dos últimos 11 anos, apenas Espírito Santo, Goiás, Pernambuco e Sergipe conseguiram avanços significativos. Nos outros 23 estados, estamos parados ou andando para trás.

Os resultados confirmam necessidade de revisão urgente e profunda de estratégias para o ensino médio. Insistir no modelo baseado em proposta anacrônica parece inútil. Fala-se em alto e bom som por especialistas e organizações educacionais. Esta também foi a justificativa do atual governo para a reforma do ensino médio.

É aí que começa uma das principais polêmicas deste ano: a exclusão dos resultados dos alunos das escolas de ensino técnico integrado da base do Saeb. A decisão foi questionada por diversos governadores, que alegam ter ampliado esta modalidade por estar mais próxima das necessidades dos alunos. Com a reforma de 2017, o esperado seria destaque ao desempenho destas escolas, mas o MEC entendeu que a utilização destes dados não estaria alinhada com a série histórica.

Independentemente dos parâmetros é uma pena não podermos ver com clareza o impacto do ensino técnico no Saeb e no Ideb e compará-lo ao desempenho do modelo escolar tradicional. O contato com o mundo do trabalho, as disciplinas práticas e laboratoriais, o desenvolvimento das competências profissionais e a carga horária ampliada, características comuns nas escolas técnicas e profissionalizantes, parecem ser elementos impulsionadores da qualidade do ensino e interesse dos alunos.

Este modelo pode ser uma boa saída para o nosso desafio e talvez até já esteja produzindo resultados por aqui. Reconhecendo que o ensino técnico integrado representa cerca de 2% do total de matrículas, o MEC poderia segregar dados para criar o Ideb do conjunto das escolas técnicas, assim como analisar a proficiência dos alunos. Seria o melhor caminho para avaliarmos custo-benefício deste tipo de abordagem e advogar com mais força pela sua ampliação.

Por ora, ficamos apenas com os argumentos dos especialistas e, também, com os clamores do setor produtivo para afirmar que quando se integra o ensino médio ao técnico e profissionalizante todos ganham.

 

*Rafael Gioieli é gerente-geral do Instituto Votorantim