Propósito e retorno financeiro

Quando os dois andam juntos em uma iniciativa, todos saem ganhando

Por Rafael Gioielli*

Anualmente, Larry Fink, fundador e chairman da BlackRock – maior gestora de patrimônio do mundo – escreve uma carta aos CEOs das companhias investidas por sua empresa.Os conselhos que Fink compartilha costumam ser respeitados no mundo dos negócios, afinal ele administra um total de US$ 6,3 trilhões em investimentos. A carta de 2018 teve um tom especial. Comemorando 30 anos de janela, mostrou-se provocativo ao dizer que para prosperar ao longo do tempo, toda empresa deve não apenas oferecer desempenho financeiro, mas mostrar como contribui positivamente para a sociedade.Mas o que levaria um dos homens mais influentes do mercado de capitais reconhecer e endossar de maneira explícita que as empresas devem servir a um propósito social maior? Romantismos à parte, a afirmação se sustenta no compromisso da BlackRock em maximizar o retorno para os seus investidores. Deixa em primeiro plano a constatação de que entregarão retornos superiores no século XXI as empresas comprometidas com a gestão de seus impactos socioambientais e que busquem gerar uma contribuição positiva para a sociedade.Empresas cujo modelo de negócio se estruturam na superação de desafios de nossa sociedade podem encontrar lugar junto a investidores tradicionais. Esta é a proposta dos chamados negócios de impacto, empresas com fins de lucro que desenham seu negócio na busca de solução para alguma problemática no campo socioambiental. Assim como a rentabilidade, a solução de impacto precisa ser medida e ter metas claras, podendo ser gerada “no que” o negócio produz, “para quem” ele produz e/ou em “como” ele produz.Uma evidência de que há espaço para esta nova mentalidade de negócio prosperar foi o lançamento, em março, da primeira debenture de impacto social do Brasil. Destinada a financiar a operação da startup Vivenda, a operação captou R$ 5 milhões em uma emissão voltada a investidores profissionais e distribuída pelo Banco ItaúBBA. O montante financiará a juros mais baixos cerca de 8 mil reformas que vão melhorar a qualidade de vida de famílias da classe D. O retorno prometido aos investidores é de 7% ao ano – apenas 0,5% a mais que a atual taxa básica de juros. A rapidez com que os títulos foram comprados – mesmo com a baixa rentabilidade e os altos riscos – revela que o mercado está ansioso para financiar este tipo de negócio.E precisamos comemorar, pois o financiamento ainda é uma das principais barreiras para os negócios de impacto. A própria Vivenda já havia tentado contrair empréstimos tradicionais nos bancos, mas nunca conseguiu ter a operação aprovada. A explicação é de que ainda há poucas referências disponíveis para as equipes de crédito analisarem o risco destes modelos inovadores de empresa.Para colocar mais luz nestes desafios e, sobretudo nas oportunidades, será realizado em São Paulo, nos dias 6 e 7 de junho, o Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impacto. Em sua terceira edição, o evento tem sido fundamental para estruturar o chamado ecossistema de negócios de impacto trazendo contribuições importantes para empreendedores, investidores e reguladores brasileiros. Não se pode perder o momento em que os ventos sopram a favor, afinal, quando uma empresa une propósito e lucratividade, todos ganham.

*Rafael Gioielli é gerente geral do instituto Votorantim.