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Cultura oral

13/03/2008

Com 700 contos na memória e mais de 11 livros publicados, Ilan Brenman sai pelo Brasil disseminando o gosto pela narrativa e mostrando que é possível, sim, unir tradição oral e escrita. Psicólogo, escritor e contador de histórias, Ilan acumula experiências com a narrativa oral que abrangem públicos diversos, com realidades diversas. Em 1997 participou do projeto Biblioteca Viva, da Fundação Abrinq, formando educadores de comunidades de risco e assentamentos de terra; em 2002, dedicou-se a contar histórias para crianças portadoras de deficiências a adolescentes hospitalizados; e hoje, além de contar histórias para crianças e adultos e capacitar professores na arte da narrativa, Ilan estuda, como doutorando da Faculdade de Educação da USP, os livros infantis politicamente corretos. Toda essa informação acumulada ao longo de sua carreira o credencia a falar sobre a importância da tradição oral para o desenvolvimento de uma forte identidade cultural, tema que você lê nesta entrevista.

Boletim da Democratização Cultural – O que é a tradição oral?
Ilan Brenman – Acho importante contextualizar que a oralidade tem uma história muito maior do que a escrita, já que o mundo tipográfico é muito recente. Alem disso, a escrita é um suporte artificial, enquanto a fala circula no mundo há milênios. Estamos falando de uma ferramenta muito poderosa que permite e promove a troca de experiências, a sedimentação de valores, o aprimoramento de conhecimentos, a divulgação de informações importantes e a possibilidade de manutenção da memória.

B.D.C – Mas ainda que a oralidade tenha um histórico maior que a escrita, ela é considerada menor em diversos círculos. Qual a sua visão sobre isso?
I.B. – A tradição oral tem sim uma história mais longa e anterior à escrita, mas a escrita detêm um status muito maior. Existe um ranço de que a oralidade seja um aspecto menor da cultura, entretanto é notório que a cultura erudita se alimenta o tempo todo de elementos da tradição oral. E isso não é um comportamento novo. Grandes compositores, como Mozart, tiravam seus temas das narrativas do povo; Machado de Assis transformava histórias que ouvia nas ruas em material erudito, lapidado...

B.D.C – A cultura oral estaria mais entranhada entre grupos sociais desfavorecidos?
I
.B.– Existe uma ligação muito forte entre tradição oral e povo e o resultado dessa ligação sempre foi traduzido em repertório para o mundo erudito. Um Cervantes é pura tradição oral; Goethe transformou, magistralmente, uma lenda popular em obra-prima com a escrita de Fausto.

B.D.C – É possível manter e cultivar a tradição oral em pleno século 21?
I.B. – Acho que é possível. O ato de contar histórias é muito interessante e está em franco resgate. O mundo é muito cíclico e agora estamos vivendo um momento de quebra de vínculos do ser humano com sua essência; os encontros foram se deteriorando, esfacelando, e a correria dá o tom da vida. Por isso, justamente quando oferecemos histórias, a experiência é transformadora. As pessoas gostam porque desaceleram, sonham... Tenho feito encontros com adultos e esse é um tempo para parar, refletir e comungar com outras pessoas. Num panorama mais amplo, a tradição oral voltou com muita força, por meio da reedição de contos, de movimentos de resgate musical, entre outros elementos.

B.D.C – E existe diferença entre contar histórias para adultos e crianças?
I.B. – A diferença é quase nenhuma. O nível de compreensão pode ser diferente, o repertório também muda, mas as reações são as mesmas. Durante a narrativa, os adultos se assustam ou se maravilham com a mesma intensidade que as crianças, o que é muito interessante para quem está contando a história.

B.D.C – Você trabalhou muitos anos em comunidades de baixa renda. Muda o jeito de contar e de ouvir histórias entre classes sociais?
I.B. – Trabalhei muitos anos em periferias e conheci o Brasil de cabo a rabo por conta de projetos de formadores de leitores em creches, centros de juventude, entre outros. O que posso dizer é que não existe ouvinte pobre e ouvinte rico. Todo mundo gosta de ouvir história e aí não importa a classe social ou a idade. Também não há concorrência com TV ou internet, porque quando o contador de histórias chega, todo mundo pára o que está fazendo e vem ouvir.

B.D.C – A tradição oral fortalece a identidade cultural?
I.B. – A oralidade traz um enorme fortalecimento cultural. E é muito curiosa a forma como as pessoas se apropriam das histórias. Cada grupo tem as suas que representam uma espécie de RG cultural. Quando você conta uma história de outro grupo que pareça com a do grupo ouvinte, a comoção é imediata. Porque as narrativas estão no inconsciente coletivo e cada povo dá novos contornos conforme sua realidade.

B.D.C – O fato de não registrar palavra por palavra faz com que a tradição oral tenha uma maior possibilidade criativa no que tange o registro da memória?
I.B. – Sem dúvida. O esquecimento é um bom contador de histórias. Tenho um livro de cabeceira, chamado Los Narradores de la Noche, do Rafik Schami, que fala de um contador de histórias analfabeto que sempre dá um novo tom à mesma narrativa porque esquece a sua estrutura. No meu caso, tenho mais de 700 contos na cabeça e nunca lembro dos detalhes exatos de cada um deles, o que me permite recriar em cima dos brancos da minha memória. Isso denota um poder criativo muito grande.

B.D.C – Se você não lembra a história como ela foi contada nos primórdios, mantém o esqueleto e recria os detalhes, isso faz com que a história seja atemporal, correto?
I
.B. – É exatamente isso. O Chico Buarque canta “agora eu era herói”, misturando passado e presente justamente pra confirmar essa atemporalidade. Nessa linha, também temos expressões como o “era uma vez” que funcionam como uma máquina do tempo e remetem a um lugar que não existe concretamente no tempo.

B.D.C – A tradição oral é ainda hoje um instrumento para a democratização cultural?
I
.B. – Acho que um bom caminho para o Brasil seria unir tradição oral e escrita; fazer a ponte entre o mundo do papel, do livro, com o mundo da palavra falada. O professor francês Daniel Pennac diz que o culto do livro passa pela tradição oral, com o que concordo integralmente.

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