“Quem trabalha com Educação precisa conhecer o tema”  

Referência mundial em Educação, a Fundação Lemann busca a qualificação constante de sua equipe para desenvolver e apoiar novas metodologias, estudos, pesquisas e ferramentas. As equipes atuam direta e indiretamente com Secretarias de Educação, diretores, professores, educadores e pesquisadores.

Para Ernesto Faria, pesquisador e gerente de projetos da fundação, há a preocupação de garantir que profissionais em qualquer cargo dentro da Lemann participem de imersões práticas para conhecer o setor: “Temos a preocupação de garantir que todas as informações e dados sobre o tema estão chegando a todas as áreas”.

Além da constante qualificação, ele destaca que qualquer modelo educacional de sucesso internacional precisa, antes de mais nada, levar em consideração as especificidades da localidade na qual será implantado. E ainda: o Brasil também pode oferecer soluções em Educação para outros países.

Confira abaixo a entrevista completa:

 

IV – A qualificação da equipe é uma das bases da Fundação Lemann?
EF: Sim, o nosso trabalho é muito forte, não só com as pesquisas e metodologias, mas com o desenvolvimento das pessoas mesmo, com a cultura de metas claras, coaching para os gestores e feedbacks.

Quem trabalha com Educação precisa conhecer o tema. Não é possível atuar só dentro de um escritório. Precisamos estar dentro das escolas, Secretarias de Educação e buscar ter esse conhecimento mais a fundo.

Nossa base é garantir o básico a todos, mas também garantir uma formação personalizada de acordo com o seu papel estratégico dentro da Fundação.

IV – Como é a troca de conhecimento entre as equipes para o desenvolvimento de novas ferramentas e metodologias?
EF: Nosso trabalho consiste em imersões, ou seja, todos os funcionários devem visitar escolas e secretarias de educação.

Também é considerada a posição da pessoa dentro da Fundação, porque o nível de Educação e Pesquisa de uma pessoa em um cargo mais alto deve ser maior, levando-se em conta o papel estratégico dela dentro da instituição.

A área de qualidade trabalha para estabelecer as experiências necessárias a essas pessoas para exercerem suas funções dentro na Fundação, e criamos as imersões para garantir isso. Nós também utilizamos muitos dados, então todos precisam conhecer bem o cenário da Educação. Acabamos de lançar um livreto com o panorama geral dos dados educacionais que temos no País e alguns estudos importantes na área.

IV – Quais são as etapas antes de lançar alguma novidade ao público?
EF: Existem muitas iniciativas em Educação que demandam diversas expertises. Assim, durante pré-projetos, antes das pesquisas, cursos de formação ou a execução de uma tecnologia em uma escola, há várias etapas. No caso de pesquisas, formamos diversos painéis de validação; no caso de implementação em escolas, temos grupos focais e buscamos conversar com diversos profissionais para entender a necessidade do público-alvo. Utilizamos a metodologia de job to be done, que pode ser traduzida como problema a ser resolvido.

Não é simplesmente o pensar “vamos fazer”, sem estar conectado à necessidade da ponta. É preciso tentar entender a necessidade e quem são as pessoas com expertise naquele assunto que podem nos ajudar num determinado projeto – dentro e fora da Fundação Lemann. Não trabalhamos contratando pesquisas ou cursos prontos, mas criamos etapas de validação e acompanhamos todo o processo para termos segurança quanto à qualidade.

IV – Quais são os principais desafios?
EF: Um desafio é que temos bons pesquisadores de Educação, com expertises variadas, mas que dialogam muito pouco. O diálogo que existe entre as faculdades de Educação e outros pesquisadores com uma visão mais quantitativa, que vêm da Economia ou Estatística, é muito pouco. E isso resulta em muitas pesquisas que não oferecem a contribuição necessária.

Esses dois grupos ainda são muito fechados, então temos o desafio de criar grupos interdisciplinares e unir essas diversas expertises importantes para análise da Educação.

IV – A Educação é um tema em constante evolução. De que maneira é feita a atualização e formação constante dos profissionais da Fundação para estarem atentos às novas tendências e descobertas?
EF: Estimulamos muito a leitura na Fundação e a participação em eventos e debates sobre educação. As pessoas que trabalham com Educação precisam saber o que está sendo discutido sobre o tema. Todas as equipes trabalham desta forma, com a leitura dos fatos e acontecimentos e envolvimento em eventos e cursos de formação

Há também os alinhamentos semanais, para atualização do time sobre o que está sendo feito pela Fundação, e as próprias imersões, com o direcionamento de conteúdos que atendam às necessidades dos times.

IV – Quais modelos internacionais para gestão de educadores podem ser replicados no Brasil?
EF: Há modelos de formação de professores muito interessantes em Columbia e Stanford, nos EUA. A União Europeia também pode auxiliar muito o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) no trabalho de mensurar dados relacionados às políticas educacionais.

Também há vários casos de sucesso de escolas que conseguem bons resultados com alunos de baixos níveis socioeconômicos. Nós poderíamos olhar para o que essas instituições estão fazendo, pensar em políticas de ensino para equidade, voltadas aos alunos de baixa renda. Acredito que fazemos pouco isso no Brasil.

Independentemente do modelo utilizado, o importante é buscar contextualizá-lo e adaptá-lo para o cenário brasileiro, pois é um país de dimensão continental com muitos desafios locais.

IV – E quais modelos nacionais podem ser exportados?
EF: Há casos bem interessantes, como o caso de Sobral. É impressionante ver como uma rede não tão pequena conseguiu garantir bons resultados, mesmo em um contexto de baixa renda. Nós precisamos ter mais medidas de casos de sucesso no País.

A Fundação Lemann está analisando a possibilidade de implantação do PISA, que é o indicador internacional, justamente para buscar essa comparação com modelos estrangeiros. O nosso sistema de avaliação, por exemplo, é bem avançado em relação a muitos países. Buscar esse intercâmbio seria muito rico a todas as partes.

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