Nada de nós sem nós: saiba como foi o Encontro Diversidades no Instituto Votorantim

“Não sei falar sem andar – paradoxalmente.” A fala de Antônio Carlos Munhoz, mais conhecido como Tuca Munhoz, abriu a segunda tarde do Encontro Diversidades, realizado nos dias 29 e 30/11, no auditório do Instituto Votorantim, em São Paulo.

Atualmente consultor da BRASA e assessor da SPTrans em assuntos de acessibilidade ao transporte público coletivo, Tuca já foi Secretário-adjunto da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo, e atua há 41 anos com o tema.

Durante o encontro, abordou as barreiras para a acessibilidade na mobilidade urbana e no transporte público em São Paulo. “Nosso lema é: ‘Não deixar ninguém para trás’. Mas muito do que existe hoje, é por conta da lei”, destacou, enquanto ziguezagueava com sua cadeira motorizada.

Tuca afirmou que vivencia a situação da não-existência da acessibilidade todos os dias, desde que as sequelas da poliomielite reduziram sua mobilidade. “É mais do que superar barreiras arquitetônicas. A acessibilidade é o acesso a direitos, não edificações. A rampa é só uma consequência”, enfatizou.

Durante a apresentação, ele também apontou os avanços ao longo das décadas. Entre eles, a Lei Brasileira de Inclusão (LBI), na garantia de direitos fundamentais.

A inclusão com a sociedade em geral também foi abordada, com ênfase na unificação de pessoas com deficiência a outras minorias. “As questões das pessoas com deficiência não estão isoladas das questões de outras minorias que estão lutando por seus direitos”, pontou.

Tuca também falou sobre o termo “deficiência”, que ainda carrega uma simbologia negativa. Ele defendeu que a deficiência está mais no meio ao qual o indivíduo está inserido do que ao corpo dele em si. Uma das alternativas, que está em estudo, é o termo “Diversidade Funcional”.

Por fim, frisou a importância da inclusão efetiva de pessoas com deficiência nos diálogos e ações voltados à acessibilidade: “Nada sobre nós sem nós”.

Comunicação Acessível

Simone Freire, diretora da agência de comunicação Espiral Interativa, chegou fazendo sua autodescrição para Deise Fernandes, consultora e sócia da MDF Treinamentos & Consultoria, convidada do evento que é totalmente cega.

“Olá, Deisy. Eu sou a Simone. Sou alta, morena, cabelos no ombro. Estou usando uma calça jeans preta e um casaco coral. Pode parecer estranho, mas é um passo importante para as pessoas que não enxergam se sentirem parte do diálogo”, explicou, enquanto se apresentava.

Jornalista de formação, Simone falou de sua experiência profissional ao longo dos últimos oito anos para aprender sobre acessibilidade. “Nós não sabíamos como fazer. Foi quando ficamos responsáveis por um trabalho da Fundação Dorina Nowill que começamos a estudar, e nos especializamos na área digital: programação, design e conteúdo”, contou.

A convidada reforçou a importância da comunicação acessível para a sociedade como um todo, não apenas para PCDs: “Um site acessível é melhor para todas as pessoas: idosos, pessoas com algum grau de deficiência visual, alguém com mobilidade reduzida temporariamente – como um braço quebrado”.

Um ponto importante destacado por Simone foi a importância do diálogo com as pessoas com deficiência. “As pessoas ainda me perguntam se cego navega pela internet. Há muita falta de informação”, ressaltando a troca de informações com colaboradores com deficiência para entender as reais necessidades.

Inclusão além das cotas

O último bate-papo contou com Marco Túlio, Gerente de Sustentabilidade e Segurança da Votorantim Siderurgia, e Deise Fernandes, consultora e sócia da MDF Treinamentos & Consultoria.

Marco Túlio perdeu os dois pés em um acidente automobilístico. Em sua fala, afirmou: “Eu faço as pessoas esquecerem que possuo uma deficiência”. O convidado falou sobre sua recuperação rápida e o esforço para voltar a andar após o acidente.

Ele destacou a importância de todas as pessoas – com e sem deficiência – buscarem potencializar suas qualidades, e não apenas buscar reforço para diminuir as dificuldades. E falou sobre o processo de recuperação e adaptação após o acidente. Hoje, ele conta com próteses, andador e cadeira de rodas.

Deise, por sua vez, foi enfática: “Eu sou uma cega indisciplinada”. Com 61 anos, 46 deles totalmente cega após o deslocamento de retina, a consultora afirma que a personalidade e as capacidades de uma pessoa não estão diretamente relacionadas à deficiência.

Os dois convidados também falaram sobre barreiras atitudinais e a importância de não limitar as pessoas mais do que as deficiências já o fazem. “Nunca imagine o que nós podemos ou não fazer”, esclareceu Deise.

A convidada também afirmou que a Lei de Cotas é uma das formas de garantir os direitos, mas que não pode ter caráter assistencialista: “As pessoas com deficiência podem até entrar por meio dela, mas não podem permanecer por causa disso”.

Por fim, Marco Túlio e Deise destacaram que o preconceito ainda vem da falta de informação, e que as maiores barreiras ainda são atitudinais.

Acompanhe-nos, também, pelo Facebook, Twitter e YouTube.