Tia Dag: “Educar é um ato de amor”

Foto de uma mulher de aproximdamente 60 anos, branca, com longos cabelos castanhos. Ela sorri.
“Eu nem lembro mais meu nome. Só sei que sou ‘a vó’ e Tia Dag.” A fala é da pedagoga Dagmar Garroux, conhecida pela alcunha e por seu trabalho na Casa do Zezinho, ONG que, há 24 anos, abriga crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social.

Tia Dag é nascida e criada em São Paulo e, desde a década de 1970, trabalha com as causas sociais. Ainda nos tempos de ditadura, abrigou exilados políticos da Argentina, Chile, Alemanha, além de brasileiros.

Dentro da própria casa, começou a lecionar por conta própria e a desenvolver o que viria a ser a Pedagogia do Arco-Íris e a Casa do Zezinho. O espaço, hoje com mais de 4 mil m², é o lar de 1.600 pessoas, entre crianças, jovens e idosos.

Ao longo de sua trajetória, Tia Dag sempre contou com apoio de profissionais, empresários, marcas e pessoas dispostas a transformar a realidade na comunidade por meio da Educação.

Em entrevista exclusiva para o nosso site, ela contou um pouco da sua longa trajetória e afirma: educar é um ato de amor.

Confira abaixo, na íntegra:


Instituto Votorantim – Com as mudanças ocorridas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) ao longo das décadas, as ações da Casa do Zezinho ganharam mais destaque?

Tia Dag: O ECA foi um avanço considerável neste país. Antes, não existia espaço para a criança ou o jovem. Todo o nosso trabalho é com base no ECA. O texto está pendurado na nossa porta da Casa do Zezinho, os direitos e deveres da criança. O estatuto nos empoderou para que crianças, jovens e até adultos saiam de situações de briga, principalmente pais que maltratam, casos de violência doméstica ou violência sexual.

 Hoje, nossas crianças e jovens vão direto à delegacia para denunciar abusos. Antes, eles tinham muito medo. Também vale para casos de maus-tratos na escola – eles vêm para a Casa do Zezinho e nós acionamos assistentes sociais, Secretarias de Educação. A gente ficou mais forte. O ECA – no Brasil pelo menos – em termos de infância e adolescência, deu um salto de mil anos.

IV – A metodologia Arco-Íris foi construída ao longo da história da Casa do Zezinho ou foi o caminho inverso: a Casa do Zezinho conseguiu chegar até aqui graças à metodologia?

TD: Eu criei essa pedagogia, mas não é mais minha. Ela foi construída e propagada por muitas mãos – Casa do Zezinho, educadores – e evolui constantemente, porque a Educação tem que evoluir.

A metodologia tem que evoluir, pois a Casa do Zezinho não padroniza. Nosso método é customizado: aqui, cada um é um. Ao contrário do conceito de escola, que, no século XXI, ainda padroniza, a Metodologia Arco-Íris evolui e cresce. Afinal, já são 24 anos de Casa do Zezinho.

 Eu estou na área social há 40 anos. Sou pedagoga formada, mas o máximo que eu conseguia ficar em uma escola eram três meses. Sempre fui do contra e desisti da escola. Mas as escolas sabiam que eu, como pedagoga, funcionava.

 Foi quando eu transformei a minha casa em uma Casa de Educação. Na década de 1970, dei aula para exilados políticos – chilenos, argentinos, brasileiros, fugitivos da Alemanha. E sempre misturava com crianças e jovens das comunidades. Sempre trabalhando assim, dentro da minha própria casa, comecei a construir a Pedagogia do Arco-Íris: por conta da diversidade.

Em 1972, Médici criou o “carnê”, que possibilitou o acesso da comunidade a aparelhos de TV dentro das comunidades. E esses jovens, que, até então, tinham o pai como referência, passaram a ter acesso a informações distintas. E também passaram a querer possuir itens como canetas hidrocor e outras coisas. Foi quando surgiu, também, o Esquadrão da Morte. Dentro das comunidades, eles penduravam o nome dos jovens que haviam cometido furtos em um poste, avisando-os da execução.

 Eu, então, comecei a buscar um espaço para esconder esses jovens. E levei todos para a minha casa. Conversei com o meu marido e decidimos comprar uma casa maior, para abrigar mais pessoas. Foi assim que comecei a realizar meu sonho de educar pela metodologia Arco-Íris, com mais cinco amigas.

IV – Ao todo, quantas crianças e jovens já foram atendidos ao longo dos anos?
TD: Em torno de 20 mil. A casa comporta 1.600 pessoas – crianças, jovens e idosos. Os mais velhos, na comunidade, mantêm a família, mas ficam abandonados. Então eu os levei para a Casa do Zezinho, e os idosos começaram a passar os conhecimentos deles aos jovens e recebiam aulas também, como de informática. Esse ano, eu perdi a parceria e tive que retirar 600 atendidos da Casa do Zezinho. Não há um principal apoiador – a Casa é dividida em cotas.

IV – Quais são os principais desafios para a realização dos programas e ações da Casa do Zezinho?
TD: Recursos, sendo a verba para manter os projetos o maior desafio.

IV – Quais são as maiores realizações ao longo desses anos?
TD: Não há maiores realizações, porque ainda não estou realizada. Tive muitas ao longo da vida, mas tem muito sonho ainda pela frente.

IV – Pensando nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, qual o papel do setor privado na proteção dos direitos das crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social?
TD: O setor privado é essencial, e as empresas precisam abrir mais espaço para jovens aprendizes. Atualmente, só são criados postos de trabalho de acordo com a cota determinada pela lei.

Também devem financiar bolsas de estudo e novas tecnologias. As mulheres, funcionárias de uma empresa, contam com creche para poderem deixar os filhos? Há ações para os jovens? O setor privado tem muito o que fazer, mais do que pagar impostos. As empresas têm que estar muito mais participativas, nas escolas, nas ONGs, olhar realmente o entorno.

Se a empresa está em um bairro e desconhece as relações daquela localidade, o que está fazendo lá? Ela mesma pode e deve melhorar o seu entorno, e a legislação auxilia nesse processo. Eu conheço muitas ações do Instituto Votorantim que se relacionam desta forma e gosto muito da atuação.

IV: Há alguma informação que gostaria de adicionar?
TD: Eu gostaria que as pessoas olhassem o site, na parte de doações. Há várias modalidades para apoio. Nada é pouco para a Casa do Zezinho. E gostaria de deixar uma frase: educar é um ato de amor.
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